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Como ouvir um “não” sem se ofender desenvolvendo “ouvidos empáticos”


Como ouvir um “não” sem se ofender desenvolvendo “ouvidos empáticos”

Imagine: você pede para seu companheiro (ou companheira) ir ao cinema com você assistir aquele filme específico que você está super a fim. Ou então você pede para uma colega de trabalho trocar, por um dia, os horários com você. Ou ainda pede para o filho te acompanhar em uma visita de família. escutar ouvir 

E a resposta que ouve deles é “não”.

E aí? Qual é a sua reação quando alguém te diz um sonoro “não”?

Você nota a tendência de fazer um discurso mental dizendo que isso não é justo por tais e tais razões? Ou talvez começa a duvidar do afeto da pessoa por você? Ou vêm à mente julgamentos sobre essa pessoa? Ou logo começa a se criticar por ter feito o pedido?

E como você se sente pensando assim? E também como age pensando assim? Você se cala e guarda uma chateação? Você cobra do outro um “sim”? Insiste até convencê-lo? Na minha experiência, nenhuma dessas soluções ajuda na relação.

Um “sim” conquistado à base de argumentos que buscam estimular medo, culpa ou vergonha, na verdade, não são um “sim” de verdade. São um “não” disfarçado, porque a pessoa não vai inteira, com entusiasmo, com força de vida, com ânimo, com alma. Vai com medo de consequências, apenas. E isso pode ir deixando uns nós na garganta de quem diz “sim” querendo dizer “não”. E ir acumulando pequenos sapos engolidos-e-não-ditos e, mais ainda, diminuir o ânimo de alimentar a conexão entre vocês.

Nesse sentido, aqueles pactos que dizem “agora é sua vez de ceder” podem fazer com que vocês percam a oportunidade de aprofundar o vínculo entre vocês, ouvindo as verdades mais profundas contidas em cada “não”. Quer saber como? Eu te conto.

Outro jeito de ouvir o “não”

A gente tem uma ideia que cria uma alternativa a todas essas reações a um “não”. Uma forma diferente de escutar essa negativa, e que está fundamentada na Comunicação Não Violenta (CNV). A ideia é que, ao dizer um “não”, a outra pessoa está dizendo um “sim” para uma necessidade bem importante para ela. E que ao dizer “não” a outra pessoa te dá oportunidade de conhecer verdadeiramente o que se passa dentro dela. Mas, para isso, o convite é você desenvolver ouvidos empáticos, desses que procuram escutar necessidades não reveladas nas frases que ouvem.

 Você pode estar se perguntando:

“Qual é o “sim” que está por trás de um(a) companheiro(a) que não quer ir ver aquele filme?”

Talvez hoje a pessoa queira descanso, dizendo um “sim” para ficar em casa e dormir mais.

Talvez esteja afirmando que quer mais movimento – e toparia ir a outro lugar para dançar, por exemplo.

Talvez queira ver um filme em casa, porque está dizendo “sim” para mais conforto.

Talvez esteja numa fase menos animada para fazer qualquer coisa – e diga “sim” para decantar as ideias, ou para solitude ou ainda para repor energia de algum outro jeito.

Veja, não dá para ter certeza do que acontece com a outra pessoa sem conversar com ela para checar, buscando escutar o seu “sim”

 

“Você quer conforto, é por isso que prefere não ir?” “Quer descanso? Quer movimento? Quer se se sentir com mais vitalidade, sem isso nada tem muita graça? Quer decantar as ideias”, são perguntas empáticas de quem está a procura de um “sim”. Em busca de entender o que o “não” revela.

((Importante: fui listando hipóteses, uma atrás da outra, mas meu convite não é você metralhar a pessoa com perguntas sem pausa. Não. Amontoei várias para que você visualize possibilidades. Mas, na conversa real, a ideia é você escolher qualquer caminho que faça sentido para você e que sirva para começar a conversar)))

E, alguma dessas hipóteses, talvez traga um “sim” do outro, mesmo que seja um pouco explícito:
“Éééé, pô, estou exausta, você não vê?”, revelando um “sim” para o descanso, por exemplo.

Pode ser ainda que a outra pessoa te aponte a direção deste “sim”, dizendo:

“Não é nada disso que você está falando! Eu estou dizendo ‘não’ porque não vejo sentido em ver esse filme sem graça!”. Aqui talvez uma pista de que “sentido” seja o “sim” desta pessoa.

 

E aí vem um comentário recorrente: 

“Ahhhh, mas toda vez é “não”? O problema é que ele(a) nunca quer fazer o que eu quero. Só topa do jeito dele(a)!”

Primeiro vale dizer que “nunca” e “só” talvez sejam generalizações e não a verdade mais precisa. Tirar essas palavras generalizadoras da frase e buscar fatos exatos ajuda a tornar a conversa mais real e também contribui para o outro te ouvir. Falando em fatos, então, imagine, que nas últimas 38 vezes (fato) em que você convidou a pessoa para ver um filme que você gosta, você tenha ouvido repetidamente um “não”.

Caso isso seja verdade, talvez seja uma oportunidade para vocês descobrirem ou criarem outros pontos em comum – esse tipo de filme talvez não seja o caso.

Esse pode ser o começo de uma conversa significativa, das boas. Dessas em que a gente não julga o outro por suas preferências, mas procura entendê-lo, para depois dizer como se sente ouvindo aquilo. Dessas em que duas pessoas vão descobrindo o que se passa consigo de verdade enquanto falam e escutam. Dessas em que a gente sente que valeu muito a pena conversar, porque agora nos sentimos mais íntegros, mais verdadeiros. Ou, até, que estamos até mais próximos, porque conseguimos nos ouvir.

Todo tema, nesse sentido, pode ser interessante para que você e a outra pessoa conversem e construam mais confiança ao sentirem que podem revelar suas verdades.

 

E isso vale para a colega de trabalho.

Vale para um funcionário da sua equipe.

Vale para o papo com o filho.

Vale para a mãe, o pai, os irmãos.

Vale para todos os “nãos” que decidimos ouvimos com coragem acreditando que um “não” é uma chance para a gente criar um vínculo ainda mais verdadeiro.

 


ideias para levar deste post:

• Um “não” para uma coisa é sinal de que está faltando algo para ficar bom o suficiente para um “sim”

• Ouvidos empáticos são aqueles que te permitem buscar escutar as necessidades dos outros, o que eles precisam de verdade para ficar bem – a razão pela qual estão dizendo “não”

• Ouvidos empáticos não precisam “acertar” o que se passa com o outro, mas apenas demonstrar interesse genuíno em descobrir

• Repare que, ao desenvolver esses “ouvidos empáticos” você deixa de alimentar o mantra “é contra mim” (caso ele ecoe na sua mente hoje em dia) e passa a colocar foco no que se passa no outro, com curiosidade e consideração

• Um “não” pode ser a oportunidade para conhecer o outro de verdade e construir junto com ele um vínculo em que as verdades dos dois caibam. Mas, sem dúvida, isso pede uma dose de coragem