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Marielle e nossos diálogos corajosos de cada dia


Marielle e nossos diálogos corajosos de cada dia

Nesta semana, “Marielle” chegou a ser o tópico mais discutido no twitter em todo o mundo – e eu fiquei muito reflexiva com esse movimento todo. Eu não conhecia Marielle, sua trajetória ou ação. Acho que muita gente que chorou também não. O assassinato dela, porém, mexeu muito comigo e com tantos que sequer a conheciam.

E por quê? – me perguntei.

A comoção tem muitas razões e resolvi investigar meus motivos mais profundos. E quero compartilhar com você o que vejo que “Marielle” tem a ver comigo, talvez com você. E com os nossos diálogos corajosos de cada dia.

Veja só. Marielle Franco, 38 anos. Mulher, negra, mãe solteira, bissexual, nascida em uma favela brasileira dominada pela violência, que se torna socióloga, vereadora e busca dar voz às várias minorias que ela representa na pele de uma só vez. Marielle carrega em si um simbolismo poderoso. Concordando ou não com as causas, vale entender o que ela inspira.

Ativista de muitas matérias, eleita com 46 mil votos, articulada, Marielle virou ícone de sobrevivência às condições limitadas de milhares de brasileiros marginalizados. Um símbolo de negação ao destino óbvio. Uma história que estimula a esperança. E, ainda, que faz acreditar que a fala corajosa tem impacto no mundo e potencial para transformar as coisas.

Mas aí, acaba assassinada. Que impacto isso tem? 

Em mim, muitos. Vou te contar um deles, em especial.

Um que vai além da minha sensação de impotência com relação ao Rio de Janeiro e da vontade de contribuir, de fato, para um mundo com mais acesso, afeto, potência de vida, escolhas e consideração para todos. Que vai além da minha tristeza em ver os direitos humanos serem discutidos em tom polarizado e não com a complexidade que merecem. Que vai além da minha dor por mais uma morte brutal e trágica e pela perda de uma voz que ousava falar em nome das mulheres, negras, pobres – que tanto carecem de representação significativa. Sinto tudo isso com força, mas hoje falo de outro motivo para enlutar sua morte e refletir.

Um que tem a ver com você e comigo, eu acredito.

De forma clara, a morte de Marielle tenta reforçar a antiga ideia que toda expressão contracorrente será castigada. Que discordar do que está estabelecido não-pode-não. De que expressar seus incômodos é perigoso pra caramba. Que coragem civil não vale a pena. E que os “incomodados que se mudem” mesmo, como muita gente repete. Afinal, “isso não é problema seu, vá cuidar da sua vida, se não quiser arranjar problema para você”. 

Vejo o quanto essas ideias estão impregnadas no vocabulário e na atitude de muitos de nós. E não só de quem está em meio a guerras urbanas explícitas que põem a vida em risco. Claro que não: no dia a dia. Silenciosamente escondido nos pactos sociais com cara de normalidade e de paz.

Com medo das reações dos outros, muitos de nós acostumamos a nos calar diante das coisas, muito antes até do silêncio diante das causas. Em momentos simples de quem vive em aparente segurança e liberdade. Pode ser numa loja, ao ouvir uma frase carregada de julgamentos de uma vendedora. Em um atendimento médico, em que você sente que gostaria de ser ouvido com mais atenção. No shopping, quando uma mãe bate no seu próprio filho. Quando um amigo faz uma piada racista, homofóbica ou machista. Quando um parente fala que tirou vantagem e dá risada. No casamento, quando as relações estão doloridas, difíceis e até têm violências, sutis ou escancaradas.

Anos atrás, eu estava entre os que calavam recorrentemente. Eu sei como pode ser desafiador falar.

Estamos pouco acostumados a dialogar abertamente sobre o que incomoda.

A ousar abalar a falsa harmonia.

E a iniciar diálogos já preparados para não se ofender e para não machucar.

Dialogar para construir mudanças.

Mas não.

Temos medo. Medo do que vão falar. De que cara vão fazer. Se vão nos ferir.

Dá para entender. Mas a pergunta que me vem é: de que paz eu quero participar? Qual quero criar?

Olhando para isso, sinto vontade de pegar aquela placa “não vão nos calar”, usada pelas multidões nos atos por Marielle, e levantá-la em muitos mais momentos triviais – e te convidar a fazer o mesmo. Até prefiro refazer a placa: “não vou me calar”, lembrando que a responsabilidade é minha de reconhecer quando é a hora de um “diálogo corajoso”, daqueles que abalam a falsa paz, colocando o conflito na mesa.

Eu me refiro a todas aquelas conversas em que o tema me importa de verdade. Aquelas que tiram o conflito que está apenas dentro de mim para colocá-lo entre nós. Ao conversar com a vendedora. Ao compartilhar com o médico seu incômodo. Abordar aquela mãe no shopping. Falar com o amigo, o parente, o filho, a mulher, o marido. Sempre que eu acreditar que falar cuida mais de mim e de nós do que ficar em silêncio.

Além de tantas outras causas, Marielle me faz lembrar do desafio nosso de cada dia de não se calar sobre o que nos importa. De não deixar o medo vencer e paralisar. De criar repertório de fala para aprender a ser porta-voz de si mesmo. Com um detalhe importante: sem ódio, sem atacar o outro, sem ironias, por mais que a indignação esteja presente.

Então hoje convido você a reconhecer em si quando é a hora de um diálogo corajoso na vida.
Quando isso cuida mais de você do que silenciar.

E a refazer o ditado popular para “os incomodados que se expressem”.

Porque o silêncio também mata, só que devagarinho. Consumindo a força de vida em nós.

Enluto a perda trágica de Marielle com a mesma força com que celebro toda voz contracorrente, que abraça corajosamente os conflitos e, assim, estimula a criação de uma realidade em que todos são vistos. E isso não cabe só às Marielles, a grandes causas.

Mas a mim e a você também. Agora.